Teresa Moure: «Este reto ético é crucial na historia da humanidade.»

On 24/10/2013 by Véspera de Nada

Teresa Moure(Un texto que nos remite a escritora Teresa Moure, unha das persoas que nos está a axudar como mecenas para facer realidade o libro. Grazas, Teresa!)

Lendo a Guia para o descenso energético

No momento histórico que estamos a viver, quando a crise sistémica do capitalismo demanda acharmos novas vias para instaurar sociedades justas e livres, a reflexão ecológica faz-se mais necessária que nunca. Uma sociedade fundamentada na exploração da natureza e das pessoas e na mais agressiva competência só pode acabar por destruir o planeta. A ciência, por muito asséptica que quiser construir-se, leva décadas advertindo de que a mudança induzida no clima, o buraco na capa de ozônio, o crescimento desmedido das urbes e o modelo abusivo de consumo energético são problemas tão urgentes que podem desembocar numa catástrofe. E, se a vida tal e como a conhecemos está ameaçada, cumprirá remexer as consciências dormidas para revisarmos as nossas relações com o médio natural. A questão exige um alto nível de compromisso político, ético e individual. No ano 2008, quando começava a andar a associação que promove esta Guia para o descenso energético, publicava esta autora o ensaio O natural é político. Os textos mantêm um acordo mais que notável para projetos que nasciam sem contato prévio. Daquela, nos médios de comunicação não faltou quem dissera que o meu era um grito no deserto. Por isso, por acreditar fortemente no objetivo que perseguem este estilo de publicações, recebo agora com excepcional satisfação este trabalho coletivo que vem sublinhar que berramos, sim, mas não no deserto.

Reconheço nesta guia uma atitude de forte compromisso, que não se satisfaz num projeto para aplicar desde as administrações e devo confessar que concordo plenamente. Acho imprescindível criar uma cultura política que permita às pessoas participarem autonomamente nas mudanças econômicas, socio-culturais e de sensibilidade vinculadas à nossa relação com a natureza. Promover jeitos de vida alternativos é tanto como melhorarmos a qualidade da nossa existência, individual e coletiva, e contribuirmos a salvar o planeta. Mas isso implica pôr toda a nossa imaginação e a nossa força de trabalho ao serviço deste objetivo prioritário, repensando desde a ciência e a tecnologia até os modos de vida, os hábitos de consumo, o modelo de lazer ou os transportes. Noutras palavras, a situação demanda que nos atrevamos a modificar as nossas existências para um benefício conjunto, carregando com uma boa dose de autocrítica e assumindo que muitos dos nossos costumes podem precisar revisão. Porque, noutro caso, confiando apenas nas medidas “verdes” da política institucional, não temos muito tempo por diante. Não podemos esperar leis promulgadas pelos parlamentos numa direção ecologicamente transformadora sabendo que o poder tende a estabelecer cumplicidades com o capital e a aceitar a “sustentabilidade” no sentido superficial de maquilagem que não questione a ordem de coisas estabelecida. A transformação social, necessária, surgirá de construirmos uma cultura política ecológica de base popular, amparada no desejo coletivo de resistirmos frente à globalização e marcadamente decrescentista.

Boa parte da povoação, anestesiada pelo consumismo e as pressas que fazem parte essencial da nossa cultura, considerará as propostas desta Guia como mais um manual de medioambientalismo. A concepção, bem extensa, de que a sensibilidade ecológica é uma teima de minorias mais ou menos contestatárias ou declaradamente hippies e que não correspondem com o núcleo da política −destinada a administrar a riqueza e a proporcionar postos de trabalho− deve ser erradicada. Nem este é mais um manual, nem é medioambientalista, nesse sentido de domesticado pelo poder, de movimento light que confia em que reciclando e comprando produtos com etiqueta de verdes já cumprimos com as nossas obrigas. Decidirmos a energia que devemos usar −quanta e qual−, igual que modificar as nossas atitudes para o uso da água, a quantidade de carne que comemos, ou o valor imaterial da paisagem é revoltar-se contra uma ideologia destrutiva, que se instalou em Ocidente com o capitalismo e que nos últimos anos está a assolar o planeta inteiro, enquanto se populariza a ideia de que nada chega: o que podemos chamar o simulacro da escassez. Porém, tirando à luz os agentes interessados em gerar essa insatisfação, é possível decidir quais dessas supostas necessidades são, na realidade, supérfluas para, a seguir, prescindir delas. Limpamente.

Este reto ético é crucial na historia da humanidade e não é impraticável. Procuramos novos modelos econômicos por estarmos disconformes com o atual, evidentemente, mas também por um facto inquestionável, que a guia aborda sem mordaças: porque o petróleo tem os dias contados. O reto que supõe hoje acharmos a energia para mover o mundo exige, ademais de visões informadas de especialistas, a criação dum coletivo com a massa crítica precisa para não se contentar com que as coisas continuem a funcionar, exigindo, por exemplo, que o planeta não sofra para que nós nos desloquemos. Talvez não tenhamos que conseguir tanta energia, mas mover o mundo um bocado −ou vários− menos. Nos inícios do século XXI, o impacto ambiental do sistema energético galego é fortíssimo. Embora sejamos uma nação pequena e não mui rica, contribuímos consideravelmente ao problema global do aquecimento porque a energia que consumimos depende enormemente ainda da queima de combustíveis fósseis e o nosso consumo de energia per capita é bem superior à quantidade que o Informe sobre o Desenvolvimento Humano estabelece para uma vida digna. Isso significa que os mitos do país apegado sentimentalmente à aldeia, bucólico e não industrializado podem questionar-se: vivemos como o ocidente consumista e temos que nos parar a reflexionar. Gosto de que, por fim, se encete um projeto como este desde Galiza porque as nações não são unicamente laços históricos: também são espaços físicos povoados por bichos que se movem dum lado a outro, paisagens e materiais inertes que nos constituem e para os que às vezes não reservamos outra palavra, mas “recursos”, bem indicativa de estarmos a participar da secular óptica de domínio que estas páginas da guia também querem denunciar.

Aliás, devemos preparar-nos para habitarmos um mundo distinto, um mundo onde não é aceitável mantermos aquecimento doméstico que nos permita estar em camisola de manga curta em janeiro, um mundo onde não se veja lógico apanhar o carro e marchar onde queiramos sem valorar os custes desse movimento. As inovações técnicas não solucionarão todos os nossos problemas se a energia que nos afixemos a gastar alegremente não vai durar e as fontes renováveis implicam outros ritmos, outro jeito de vida. Neste ponto começamos a pensar no planeta como um conjunto de seres envolvidos na biosfera −e não sob a imagem de corpos ao nosso serviço que foi expandida desde o cristianismo até a expansão do capitalismo−, adotando medidas concretas, como limitar o uso da energia, ou restringir as cabeças de gado, que exigem demasiada terra e contribuem ao aquecimento para satisfazer um consumo de proteínas insano e desaforado. A agricultura ecológica fala de cultivar a terra com arado, isto é, o mais superficialmente possível para não esgotá-la, ou de que os animais possam viver em liberdade para contribuírem à vida com os seus serviços ou produtos numa relação entranhada. Porque, consumindo-os ou não, que nisto há muito que debater, conviria evitar a sua conversão em simples mercancias. Neste contexto, cumpre também encher com formas de prazer alternativo parte do tempo que hoje investimos em consumir, primando atividades lentas, que reduzem o tempo disponível para outras mais contaminantes. Igualmente, comprarmos produtos caros de boa qualidade ou bons para a saúde, como os produtos biológicos, impede que gastemos em produtos nocivos e contaminantes, que alimentam a nossa vontade de consumir mais. Porque a atual obsessão pelo consumo é o principal problema e, nesse sentido, adotarmos uma existência frugal, que se contente com o necessário, supõe um problema para o capital, para além de criar indivíduos independentes e livres. Os carros, com a sua promessa de nos fazerem livres, roubam-nos o tempo que passamos nos seu interior, indo dum lado ao outro, ademais de reduzirem as energias disponíveis, produzirem contaminação, ruído, e tantos acidentes fatais que bem podemos calcular a quantidade de publicidade que se dedica a enganar-nos para que nem os lembremos. Apostarmos pelo transporte coletivo e, especialmente, pelo comboio como vertebrador do território, em vez de implantar o modelo antiecológico da alta velocidade é uma necessidade. E, enfim, podemos dedicar mais tempo à arte, à convivência, ao debate de ideias, à amizade, à discussão inteligente, ao sexo, ao jogo. Podemos fazer que outro mundo seja possível.

Que se publiquem reflexões informadas sobre estes temas não é só uma boa notícia; é o primeiro passo para a mudança urgente que se precisa. E, enquanto lemos, não consumimos!

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